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A suplementação de vitamina D encontra-se recomendada em pessoas idosas saudáveis?
- Breves Questões Terapêuticas
![]() - A suplementação generalizada de vitamina D não reduz o risco de quedas nem de fraturas em pessoas idosas saudáveis. - Devem ser priorizadas intervenções não farmacológicas, como a prática de exercício físico e abordagens multifatoriais individualizadas. - A suplementação encontra se indicada em indivíduos com défice documentado de vitamina D e em grupos de alto risco. ![]() |
A vitamina D é essencial para a homeostase óssea e para o metabolismo do cálcio e do fósforo, desempenhando igualmente um papel relevante na função muscular e neuromuscular.1-4 A vitamina D é sintetizada endogenamente na pele sob a forma de vitamina D3 (colecalciferol), após exposição solar, ou obtida através da ingestão alimentar ou de suplementos, maioritariamente sob a forma de vitamina D2 (ergocalciferol). Ambas as formas necessitam de conversão metabólica no fígado e nos rins para a sua forma biologicamente ativa, o calcitriol (1,25 di hidroxivitamina D).1,3,4
Com o envelhecimento, verifica se uma diminuição da capacidade de síntese cutânea de vitamina D3, bem como uma possível redução da absorção intestinal.1 Adicionalmente, a presença de doenças crónicas — como insuficiência renal ou hepática e síndromes de malabsorção4 — e o uso de determinados fármacos1,3 (como glucocorticoides)3 podem comprometer a ativação ou a absorção da vitamina D. Em pessoas idosas, a reduzida exposição solar — frequentemente associada ao sedentarismo, à limitação funcional ou à institucionalização — constitui uma causa importante de níveis insuficientes de vitamina D.1,3
A suplementação com vitamina D tem sido amplamente promovida como estratégia para melhorar a saúde musculoesquelética e reduzir a incidência de fraturas e quedas em adultos, sendo frequentemente associada à suplementação com cálcio, com o objetivo de potenciar a absorção intestinal deste mineral.1-3,5 No entanto, a evidência científica mais recente tem vindo a clarificar e a relativizar o impacto da suplementação isolada de vitamina D na prevenção destes eventos, sobretudo em idosos residentes na comunidade sem défice documentado.2,4-7
Meta análises recentes de ensaios clínicos aleatorizados realizados em populações idosas saudáveis confirmam a ausência de um efeito clinicamente relevante da suplementação isolada de vitamina D na prevenção de fraturas osteoporóticas.1,7 Uma, publicada em 2017, que incluiu 51 145 adultos idosos residentes na comunidade, não demonstrou benefício da suplementação com vitamina D, isolada ou combinada com cálcio, na redução da incidência de fraturas de qualquer tipo, incluindo fraturas da anca ou vertebrais.1,6 Benefícios modestos foram observados apenas quando a vitamina D foi administrada em associação com cálcio, e sobretudo em populações institucionalizadas ou com défices nutricionais relevantes.1,6
O estudo complementar do ensaio clínico aleatorizado VITAL incluiu 25 871 adultos saudáveis (idade média de 67 anos) e avaliou o efeito da suplementação diária com vitamina D3 (2000 UI) na incidência de fraturas totais, não vertebrais e da anca. Após um seguimento médio de 5,3 anos, não se observou qualquer redução estatisticamente significativa do risco de fraturas em comparação com placebo, mesmo após análises por subgrupos definidos por idade, sexo, índice de massa corporal ou níveis basais de vitamina D.5
Uma revisão baseada na evidência, publicada em 2020, concluiu que a suplementação de vitamina D não apresenta benefícios consistentes na prevenção de quedas e fraturas em todos os idosos.2 Os resultados sugerem que o seu benefício se restringe sobretudo a idosos com deficiência de vitamina D, particularmente os institucionalizados, podendo ser mais eficaz quando associada ao cálcio.2 Em idosos que vivem na comunidade e apresentam níveis adequados e vitamina D, não se verificou redução significativa do risco de quedas ou fraturas.2 A revisão alerta ainda para a ausência de benefício de doses elevadas em esquemas intermitentes, podendo estes associar-se a efeitos adversos, pelo que a suplementação não deve ser recomendada de forma universal.2
Uma revisão umbrella publicada em 2024, que analisou 106 revisões sistemáticas sobre intervenções de prevenção de quedas em idosos residentes na comunidade e em instituições, identificou evidência de qualidade baixa e resultados inconsistentes quanto à eficácia da vitamina D na redução de quedas e fraturas, quando comparada com outras estratégias preventivas.1,8
De forma consistente, a evidência atualmente disponível indica que a suplementação generalizada com vitamina D não reduz o risco de quedas nem de fraturas em idosos não institucionalizados com níveis séricos normais de vitamina D.1,2,5-7 Importa ainda considerar que a suplementação com vitamina D pode estar associada a efeitos adversos, nomeadamente hipercalcemia, hipercalciúria, sintomas gastrointestinais e aumento do risco de litíase renal,4 sobretudo quando associada a cálcio. 1,3,6
As recomendações de prática clínica mais recentes privilegiam as intervenções não farmacológicas como estratégia de primeira linha na prevenção de quedas em idosos, destacando se os programas estruturados de exercício físico e a terapia ocupacional.1,2,8,9 São igualmente recomendadas abordagens multifatoriais individualizadas,2,8 como a adaptação do ambiente domiciliário, a avaliação e correção da acuidade visual e a revisão da medicação, reconhecidos como fatores de risco para quedas.1,8,9
Assim, a suplementação com vitamina D encontra se indicada principalmente em pessoas idosas com défice documentado de vitamina D,1,2,4 bem como em grupos de alto risco, incluindo idosos institucionalizados, pessoas com osteoporose, distúrbios de malabsorção intestinal ou exposição solar limitada.1-4 Nestes casos, a suplementação deve ser acompanhada de monitorização clínica e laboratorial adequada, de modo a maximizar o benefício e minimizar o risco de efeitos adversos.1
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