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Como gerir as interações entre as estatinas e os macrólidos?
- Breves Questões Terapêuticas
![]() - Os macrólidos podem interagir com as estatinas e aumentar os seus níveis séricos, potenciando o risco de toxicidade muscular. - O grau de risco e o modo de atuação depende tanto do macrólido, como da estatina. - É essencial um aconselhamento adequado para mitigar o risco de efeitos adversos. ![]() |
As estatinas, ou inibidores da enzima HMG-CoA
redutase, são a classe de antidislipidémicos mais amplamente prescrita, devido
aos seus benefícios claramente estabelecidos na diminuição da morbilidade e
mortalidade relacionadas com as doenças cardiovasculares.1,2 Apesar
de serem habitualmente bem toleradas, estão associadas a alguns eventos adversos,
entre os quais se destaca a mialgia, um efeito dependente da dose.1
Assim, níveis séricos elevados de estatinas podem
aumentar o risco de alterações musculares, como miopatia ou rabdomiólise,3,4o que, na maioria dos doentes, não terá significado clínico. Contudo, caso
estejam presentes outros fatores de risco, como idade avançada,2 comorbilidades2,4ou a toma de fármacos que interfiram no metabolismo das estatinas,
pode ocorrer toxicidade muscular grave.1,2,4
As estatinas podem ser substratos dos citocromos
hepáticos (CYP) e do polipéptido transportador de aniões orgânicos (OATP),1-4bem como da glicoproteína-P.1,4 Porém, nem todas as estatinas
apresentam as mesmas vias metabólicas (Tabela).
Tabela. Enzimas e alguns transportadores envolvidos
na metabolização das estatinas
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FÁRMACO |
VIAS METABÓLICAS* |
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Atorvastatina |
Metabolizada pela CYP3A4.1,3,4 Substrato do OATP1B11,3,4 e do OATP1B3.3,4 |
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Fluvastatina |
Metabolizada principalmente pela CYP2C91,3,4 e, em menor grau, pela CYP3A4 e outras isoenzimas.3 Substrato do OATP1B13,4 e do OATP1B3.1,3,4 |
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Lovastatina |
Metabolizada pela CYP3A41,4 e CYP2C9.4 Substrato do OATP1B11,4 e do OATP1B3.4 |
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Pitavastatina |
Metabolizada pela CYP3A4.4 Substrato do OATP1B1 e do OATP1B3.4 |
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Pravastatina |
Metabolização limitada pelas isoenzimas CYP.1,3 Substrato do OATP1B1 e do OATP1B3.1,3,4 |
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Rosuvastatina |
Metabolização limitada, principalmente pela CYP2C9.1,3 Substrato do OATP1B1 e do OATP1B3.1,3,4 |
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Sinvastatina |
Metabolizada pela CYP3A.1,3 Substrato da OATP1B1.1,3 |
*Não inclui informação
sobre estatinas que são substratos da glicoproteína-P.
Os macrólidos são antibióticos bastante
utilizados,1,2 tanto em tratamentos de curta ou longa duração,1quer em cuidados primários como em meio hospitalar.2 Os macrólidos
podem interagir com as estatinas e aumentar os seus níveis séricos,1,3,4ao inibir as isoenzimas 3A4 do citocromo P450 e também os transportadores
hepáticos de absorção das estatinas OATP 1B1 ou 1B3.2,3
Os diferentes macrólidos têm distintos perfis de interação
com as estatinas, o que condiciona diferenças na abordagem perante o uso simultâneo.
AZITROMICINA
A azitromicina não inibe o CYP3A4, o OATP1B1 ou o OATP1B3,1-3
pelo que não é expectável que aumente os níveis séricos das estatinas, podendo estas
ser administradas concomitantemente.2,3 Contudo, tem havido relatos raros
de rabdomiólise e interações envolvendo a azitromicina com algumas estatinas,3
pelo que os utentes devem ser aconselhados a monitorizar o surgimento de qualquer
efeito adverso inesperado,3,4 particularmente na toma
concomitante com atorvastatina, lovastatina e sinvastatina.1,2,4
CLARITROMICINA E ERITROMICINA
A claritromicina e a eritromicina inibem o CYP3A4, o
OATP1B1 e o OATP1B3, aumentando os níveis séricos das estatinas metabolizadas por
estas três vias.2,3
- Atorvastatina. Evitar o uso concomitante.1-4 Se possível, optar por um macrólido com perfil mais favorável, como a azitromicina.2,3 Se a administração concomitante for imprescindível, utilizar uma dose mais baixa de atorvastatina (máximo 20 mg/dia),3 ou ponderar a sua interrupção temporária durante o tratamento antibiótico.2,3
- Fluvastatina. Pode ser continuada,1-4 com monitorização de eventuais efeitos adversos.1,4
- Lovastatina. Devido à semelhança do seu metabolismo com o da sinvastatina,2 deve ser seguida a mesma abordagem (ver infra).1,2,4
- Pitavastatina. Não deve ser utilizada concomitantemente em doses superiores a 1 mg.2,4 Caso contrário, deverá optar-se pela azitromicina ou pela interrupção temporária do tratamento.2
- Pravastatina. Utilizar com precaução,2,3 desde que a dose não exceda os 40 mg/dia.1,2,4 Alertar os doentes acerca dos possíveis riscos de interação e para a necessidade de vigiar o surgimento de efeitos adversos.3 Com o uso de doses superiores a 40 mg/dia, optar pela azitromicina ou pela interrupção temporária da pravastatina.2
- Rosuvastatina. Pode ser continuada,1-4 com monitorização de eventuais efeitos adversos.1,4
- Sinvastatina. O uso concomitante está contraindicado. Caso seja essencial a toma de algum destes macrólidos, a sinvastatina terá de ser interrompida enquanto decorra o tratamento.2-4
OUTROS MACRÓLIDOS
A espiramicina não é um inibidor enzimático, pelo
que é expectável que apresente um perfil mais favorável no que concerne a
interações medicamentosas.5
Aconselhamento aos utentes
O uso concomitante entre macrólidos e estatinas deve ser
cuidadosamente ponderado, considerando os fármacos específicos em causa,4
sendo essencial um aconselhamento adequado para mitigar o risco de efeitos
adversos.2
Todos os doentes sob terapêutica concomitante devem ser
alertados para a importância de interromper a medicação e procurar
aconselhamento médico se experienciarem dores musculares incomuns2,3 ou
outros sintomas de miopatia, como sensibilidade dolorosa, fraqueza e urina
escura.3
Os níveis séricos aumentados das estatinas afetadas por
estas interações irão voltar gradualmente ao normal após a suspensão do
macrólido. Caso seja necessário interromper a toma de uma estatina durante o
tratamento com macrólidos, é geralmente adequado reiniciá-la logo que termine o
tratamento antibiótico, o que também facilita que os utentes recordem que devem
retomar a toma.3 Após um período de interrupção, os níveis das
estatinas aumentam lentamente e eventualmente atingem o estádio estacionário2,3
em cerca de 2-5 dias.2
Referências bibliográficas
1. Hylton Gravatt LA, Flurie RW, Lajthia E, Dixon DL.
Clinical Guidance for Managing Statin and Antimicrobial Drug-Drug Interactions.
Curr Atheroscler Rep. 2017 Oct 9;19(11):46. doi: 10.1007/s11883-017-0682-x.
2. Abu Mellal A, Hussain N, Said AS. The clinical
significance of statins-macrolides interaction: comprehensive review of in vivo
studies, case reports, and population studies. Ther Clin Risk Manag. 2019 Jul
23;15:921-936. doi: 10.2147/TCRM.S214938.
3. Managing interactions between macrolides and statins. Specialist Pharmacy Service. Published 24 November 2023; Last updated 12 July 2024 [acedido a 25-07-2025]. Disponível em: https://www.sps.nhs.uk/articles/managing-interactions-between-macrolides-and-statins/
4. Spanakis M, Alon-Ellenbogen D, Ioannou P, Spernovasilis N. Antibiotics and Lipid-Modifying Agents: Potential Drug-Drug Interactions and Their Clinical Implications. Pharmacy (Basel). 2023 Aug 19;11(4):130. doi: 10.3390/pharmacy11040130.
5. Interactions médicamenteuses Macrolides. Application Prescrire – Janvier 2025.

