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Como gerir as interações entre as estatinas e os macrólidos?

  • Breves Questões Terapêuticas
29 Agosto 2025
Como gerir as interações entre as estatinas e os macrólidos?
 

- Os macrólidos podem interagir com as estatinas e aumentar os seus níveis séricos, potenciando o risco de toxicidade muscular.

O grau de risco e o modo de atuação depende tanto do macrólido, como da estatina.

- É essencial um aconselhamento adequado para mitigar o risco de efeitos adversos.

As estatinas, ou inibidores da enzima HMG-CoA redutase, são a classe de antidislipidémicos mais amplamente prescrita, devido aos seus benefícios claramente estabelecidos na diminuição da morbilidade e mortalidade relacionadas com as doenças cardiovasculares.1,2 Apesar de serem habitualmente bem toleradas, estão associadas a alguns eventos adversos, entre os quais se destaca a mialgia, um efeito dependente da dose.1

Assim, níveis séricos elevados de estatinas podem aumentar o risco de alterações musculares, como miopatia ou rabdomiólise,3,4o que, na maioria dos doentes, não terá significado clínico. Contudo, caso estejam presentes outros fatores de risco, como idade avançada,2 comorbilidades2,4ou a toma de fármacos que interfiram no metabolismo das estatinas, pode ocorrer toxicidade muscular grave.1,2,4 


As estatinas podem ser substratos dos citocromos hepáticos (CYP) e do polipéptido transportador de aniões orgânicos (OATP),1-4bem como da glicoproteína-P.1,4 Porém, nem todas as estatinas apresentam as mesmas vias metabólicas (Tabela).

Tabela. Enzimas e alguns transportadores envolvidos na metabolização das estatinas

   FÁRMACO

   VIAS METABÓLICAS*

   Atorvastatina

   Metabolizada pela CYP3A4.1,3,4

   Substrato do OATP1B11,3,4 e do OATP1B3.3,4

   Fluvastatina

   Metabolizada principalmente pela CYP2C91,3,4 e, em menor grau, pela CYP3A4 e outras isoenzimas.3

   Substrato do OATP1B13,4 e do OATP1B3.1,3,4

   Lovastatina

   Metabolizada pela CYP3A41,4 e CYP2C9.4

   Substrato do OATP1B11,4 e do OATP1B3.4

   Pitavastatina

   Metabolizada pela CYP3A4.4

   Substrato do OATP1B1 e do OATP1B3.4

   Pravastatina

   Metabolização limitada pelas isoenzimas CYP.1,3

   Substrato do OATP1B1 e do OATP1B3.1,3,4

   Rosuvastatina

   Metabolização limitada, principalmente pela CYP2C9.1,3 Substrato do OATP1B1 e do OATP1B3.1,3,4

   Sinvastatina

   Metabolizada pela CYP3A.1,3

   Substrato da OATP1B1.1,3

*Não inclui informação sobre estatinas que são substratos da glicoproteína-P.

Os macrólidos são antibióticos bastante utilizados,1,2 tanto em tratamentos de curta ou longa duração,1quer em cuidados primários como em meio hospitalar.2 Os macrólidos podem interagir com as estatinas e aumentar os seus níveis séricos,1,3,4ao inibir as isoenzimas 3A4 do citocromo P450 e também os transportadores hepáticos de absorção das estatinas OATP 1B1 ou 1B3.2,3


Os diferentes macrólidos têm distintos perfis de interação com as estatinas, o que condiciona diferenças na abordagem perante o uso simultâneo.

AZITROMICINA

A azitromicina não inibe o CYP3A4, o OATP1B1 ou o OATP1B3,1-3 pelo que não é expectável que aumente os níveis séricos das estatinas, podendo estas ser administradas concomitantemente.2,3 Contudo, tem havido relatos raros de rabdomiólise e interações envolvendo a azitromicina com algumas estatinas,3 pelo que os utentes devem ser aconselhados a monitorizar o surgimento de qualquer efeito adverso inesperado,3,4 particularmente na toma concomitante com atorvastatina, lovastatina e sinvastatina.1,2,4

CLARITROMICINA E ERITROMICINA

A claritromicina e a eritromicina inibem o CYP3A4, o OATP1B1 e o OATP1B3, aumentando os níveis séricos das estatinas metabolizadas por estas três vias.2,3

  • Atorvastatina. Evitar o uso concomitante.1-4 Se possível, optar por um macrólido com perfil mais favorável, como a azitromicina.2,3 Se a administração concomitante for imprescindível, utilizar uma dose mais baixa de atorvastatina (máximo 20 mg/dia),3 ou ponderar a sua interrupção temporária durante o tratamento antibiótico.2,3
  •  Fluvastatina. Pode ser continuada,1-4 com monitorização de eventuais efeitos adversos.1,4
  • Lovastatina. Devido à semelhança do seu metabolismo com o da sinvastatina,2 deve ser seguida a mesma abordagem (ver infra).1,2,4
  • Pitavastatina. Não deve ser utilizada concomitantemente em doses superiores a 1 mg.2,4 Caso contrário, deverá optar-se pela azitromicina ou pela interrupção temporária do tratamento.2
  • Pravastatina. Utilizar com precaução,2,3 desde que a dose não exceda os 40 mg/dia.1,2,4 Alertar os doentes acerca dos possíveis riscos de interação e para a necessidade de vigiar o surgimento de efeitos adversos.3 Com o uso de doses superiores a 40 mg/dia, optar pela azitromicina ou pela interrupção temporária da pravastatina.2  
  • Rosuvastatina. Pode ser continuada,1-4 com monitorização de eventuais efeitos adversos.1,4
  • Sinvastatina. O uso concomitante está contraindicado. Caso seja essencial a toma de algum destes macrólidos, a sinvastatina terá de ser interrompida enquanto decorra o tratamento.2-4

OUTROS MACRÓLIDOS

A espiramicina não é um inibidor enzimático, pelo que é expectável que apresente um perfil mais favorável no que concerne a interações medicamentosas.5

Aconselhamento aos utentes

O uso concomitante entre macrólidos e estatinas deve ser cuidadosamente ponderado, considerando os fármacos específicos em causa,4 sendo essencial um aconselhamento adequado para mitigar o risco de efeitos adversos.2

Todos os doentes sob terapêutica concomitante devem ser alertados para a importância de interromper a medicação e procurar aconselhamento médico se experienciarem dores musculares incomuns2,3 ou outros sintomas de miopatia, como sensibilidade dolorosa, fraqueza e urina escura.3

Os níveis séricos aumentados das estatinas afetadas por estas interações irão voltar gradualmente ao normal após a suspensão do macrólido. Caso seja necessário interromper a toma de uma estatina durante o tratamento com macrólidos, é geralmente adequado reiniciá-la logo que termine o tratamento antibiótico, o que também facilita que os utentes recordem que devem retomar a toma.3 Após um período de interrupção, os níveis das estatinas aumentam lentamente e eventualmente atingem o estádio estacionário2,3 em cerca de 2-5 dias.2

Referências bibliográficas

1. Hylton Gravatt LA, Flurie RW, Lajthia E, Dixon DL. Clinical Guidance for Managing Statin and Antimicrobial Drug-Drug Interactions. Curr Atheroscler Rep. 2017 Oct 9;19(11):46. doi: 10.1007/s11883-017-0682-x.

2. Abu Mellal A, Hussain N, Said AS. The clinical significance of statins-macrolides interaction: comprehensive review of in vivo studies, case reports, and population studies. Ther Clin Risk Manag. 2019 Jul 23;15:921-936. doi: 10.2147/TCRM.S214938.

3. Managing interactions between macrolides and statins. Specialist Pharmacy Service. Published 24 November 2023; Last updated 12 July 2024 [acedido a 25-07-2025]. Disponível em: https://www.sps.nhs.uk/articles/managing-interactions-between-macrolides-and-statins/

4. Spanakis M, Alon-Ellenbogen D, Ioannou P, Spernovasilis N. Antibiotics and Lipid-Modifying Agents: Potential Drug-Drug Interactions and Their Clinical Implications. Pharmacy (Basel). 2023 Aug 19;11(4):130. doi: 10.3390/pharmacy11040130.

5. Interactions médicamenteuses Macrolides. Application Prescrire – Janvier 2025.