Como gerir os efeitos adversos mais comuns dos inibidores da acetilcolinesterase no tratamento da doença de Alzheimer?
- Breves Questões Terapêuticas
![]() - A gestão eficaz dos efeitos adversos dos inibidores da acetilcolinesterase (IACE) é essencial para otimizar a adesão à terapêutica e os benefícios cognitivos. - O tratamento deve iniciar-se com doses baixas, ajustando gradualmente conforme a tolerância. - A memantina constitui uma alternativa segura quando os IACE são mal tolerados ou contraindicados. ![]() |
A doença de Alzheimer (DA)
é uma patologia neurodegenerativa progressiva, caracterizada por deterioração
cognitiva e funcional, com impacto significativo na qualidade de vida.1,2
A disfunção colinérgica cortical, decorrente da redução da atividade da
colina acetiltransferase e da síntese de acetilcolina, constitui um dos
principais mecanismos fisiopatológicos.2-4
Os IACE - donepezilo,
rivastigmina e galantamina1-7 – atuam através da inibição
da colinesterase na fenda sináptica, potenciando a transmissão colinérgica.1,2,4,5
São recomendados como primeira linha terapêutica em fases ligeiras a moderadas
da DA, proporcionando benefícios sintomáticos modestos.1,4-6
Estes fármacos são habitualmente bem tolerados. Contudo, podem estar associados a alguns efeitos adversos, comuns a toda a classe, geralmente transitórios, dependentes da dose1,3,5 e da forma farmacêutica, que podem impactar a sua tolerabilidade e, consequentemente, a adesão ao tratamento.1,5
Os efeitos adversos dos
fármacos podem passar despercebidos nestes doentes, devido à diminuição da
capacidade de comunicação e da memória, bem como à sua dificuldade em colaborar
durante o exame clínico.1,2 A observação do cuidador
é, por isso, fundamental para a deteção precoce,6 sobretudo quando
os efeitos adversos se assemelham aos próprios sintomas da doença.1,2
Efeitos Gastrointestinais (GI)
Os efeitos adversos GI são os
mais frequentemente reportados, destacando-se as náuseas, vómitos, diarreia,
anorexia e perda de peso.1-3,5,6 Decorrem da estimulação
colinérgica excessiva ao nível do trato GI, que promove o aumento da secreção
gástrica e da motilidade intestinal.2,3 São habitualmente efeitos
autolimitados, que tendem a melhorar com o tempo ou mediante a redução da dose.1,3,5
Tanto a galantamina
como a rivastigmina oral devem ser administradas juntamente com as
refeições, de forma a reduzir a incidência de efeitos adversos GI.1,5,6
No caso da rivastigmina, a administração mais frequente de doses menores
ou a substituição pelos adesivos transdérmicos pode contribuir para uma
melhor tolerabilidade.5,6 Estes devem ser aplicados diariamente, em
locais diferentes, para evitar irritação cutânea.1-3,5
O donepezilo parece
estar menos associado a queixas GI do que a galantamina ou a rivastigmina, pelo
que pode representar uma opção adequada em doentes que não tolerem os outros
fármacos desta classe.5 Caso ocorram náuseas diurnas, a sua
administração pode ser alterada para a noite; todavia, é necessário ter
especial atenção à possibilidade de ocorrência de perturbações do sono (ver
infra).5
Recomenda-se a monitorização
de hemorragias gastrointestinais, ativas ou ocultas, sobretudo em doentes
de maior risco, como aqueles com historial de úlcera péptica,2 ou
sob terapêutica concomitante com anti-inflamatórios não esteroides.3
Efeitos Cardiovasculares
Os IACE aumentam a
atividade vagotónica,3,5 podendo causar efeitos adversos
cardiovasculares como bradicardia e bloqueios de condução,1-3,5 pelo
que os utentes deverão ser avaliados quanto à presença de antecedentes e
monitorizados através de exame físico e eletrocardiograma.1,5
O seu uso requer precaução
em indivíduos com bradicardia de base ou com doença conhecida do sistema de
condução cardíaca, bem como em administração concomitante com outros medicamentos que
provoquem bradicardia ou alterem a condução nodal auriculoventricular,1-3
tais como os bloqueadores beta,1,3,5 os bloqueadores dos canais de
cálcio3,5 e a lacosamida.5
A terapêutica
colinérgica deve ser descontinuada nos utentes que desenvolvam
bradicardia sintomática e/ou hipotensão, e para a qual não seja
identificável outra causa tratável (por exemplo, terapêutica
anti-hipertensiva concomitante).5
Perturbações do foro psiquiátrico e do sono
Em doses elevadas, os IACE
podem agravar sintomas psiquiátricos como alucinações, ansiedade e
confusão.3 Estes aparentam ser mais frequentes com o donepezilo do
que com a galantamina ou a rivastigmina.3,5
Os sonhos vívidos,
particularmente com donepezilo administrado à noite, relacionam-se com
alterações do sono REM (rapid eye movement).3 Neste caso,
poderá ser útil a administração de manhã1 ou a substituição por
outro fármaco.5 A insónia tende também a ocorrer mais
frequentemente com o donepezilo,2 sendo menos comum com a
rivastigmina.1
Estratégias para a gestão dos efeitos adversos dos IACE
A gestão adequada dos efeitos
adversos dos IACE é fundamental para otimizar a adesão à terapêutica e
maximizar os benefícios cognitivos.
As principais estratégias
incluem:
- Iniciar a terapêutica com doses baixas e
realizar uma titulação gradual, adaptando o ritmo de aumento consoante a
tolerância individual;1-3,5 poderá ser necessário um período de
titulação até 12 semanas para permitir o desenvolvimento de tolerância e
reduzir a incidência destes eventos;6
- Avaliação da resposta clínica três e seis meses
após o início do tratamento, sendo recomendável um contacto precoce, cerca de duas
semanas após o início, para identificar possíveis reações adversas e
ajustar a dose, se necessário;5,6
- Administrar as formulações orais com
alimentos;1,5,6
- A administração de um antiemético de curta
duração, como a domperidona, pode ser equacionada durante a fase de
titulação.2,6 Deve evitar-se antieméticos com propriedades
anticolinérgicas, como o dimenidrinato, pois podem agravar o défice cognitivo
ou induzir delírio;6
- A utilização da formulação transdérmica de
rivastigmina poderá constituir uma alternativa viável em doentes com
intolerância gastrointestinal;3,6
- Alteração da classe farmacológica. A memantina, um antagonista dos recetores N-metil-D-aspartato, possui um mecanismo de ação distinto dos agentes colinérgicos, o que lhe confere um efeito neuroprotetor e um perfil de segurança favorável, sem efeitos adversos significativos.1,4-6 A memantina é uma opção terapêutica em indivíduos com formas moderadas a graves de DA, ou que apresentem intolerância ou contraindicação aos IACE.1,5-7
Referências bibliográficas:
1. Recomendaciones para el uso
racional del medicamento en el tratamiento farmacológico de las demencias.
Enfermedad de Alzheimer y otras demencias. Servicio Andaluz de Salud; 2022. [acedido
a 29-10-25]. Disponível em: https://www.sspa.juntadeandalucia.es/servicioandaluzdesalud/sites/default/files/sincfiles/wsas-media-mediafile_sasdocumento/2022/Demencias_Definitivo_25-03-2022.pdf
2. Punto farmacológico nº183:
Enfermedad de Alzheimer: avances en su abordaje. Consejo General de Colegios
Farmacéuticos, septiembre 2024. [acedido a 29-10-25]. Disponível em: https://www.farmaceuticos.com/wp-content/uploads/2024/09/PF-183-Enfermedad-de-Alzheimer.pdf
3. Ruangritchankul
S, Chantharit P, Srisuma S, Gray LC. Adverse Drug Reactions of
Acetylcholinesterase Inhibitors in Older People Living with Dementia: A
Comprehensive Literature Review. Ther Clin Risk Manag. 2021 Sep 4;17:927-949.
doi: 10.2147/TCRM.S323387.
4. Press
D, Buss S. Treatment of Alzheimer disease. UpToDate©, topic last updated: Jan
14, 2025.
5. Press
D, Buss S. Cholinesterase inhibitors in the treatment of dementia. UpToDate©,
topic last updated: Jun 18, 2025.
6. Cognitive
Impairment – Recognition, Diagnosis and Management in Primary Care: Appendix E.
BCGuidelines.ca (2014, Revised 2016). [acedido a 29-10-25]. Disponível
em: https://www2.gov.bc.ca/assets/gov/health/practitioner-pro/bc-guidelines/cogimp-appendix-e.pdf?
7. Dementia: Assessment, management and support
for people living with dementia and their carers. London: National Institute
for Health and Care Excellence (NICE); 2018 Jun. [acedido a
29-10-25]. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng97/resources/dementia-assessment-management-and-support-for-people-living-with-dementia-and-their-carers-pdf-1837760199109

