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Compreendi

Como promover o uso seguro do metamizol?

  • Breves Questões Terapêuticas
29 Setembro 2025
Como promover o uso seguro do metamizol?
 

- O metamizol é um fármaco com um longo historial de utilização.

Apresenta um perfil benefício-risco favorável nas indicações aprovadas.

- Uma adequada informação aos utentes é essencial para promover o uso seguro.


O metamizol é um derivado da pirazolona1 com propriedades analgésicas, anti-inflamatórias e antipiréticas.2,3 Está indicado no alívio da dor aguda intensa, como é o caso da dor pós-traumática e pós-operatória, dor espasmódica, dor oncológica e também da febre elevada que não responda a outros antipiréticos.2 

O metamizol foi introduzido no mercado em 1922; porém, o seu perfil de efeitos adversos, particularmente o risco de agranulocitose, levou à sua retirada do mercado 2,3 na década de 60 no Canadá, na década de 70 nos Estados Unidos da América (EUA) e, mais tarde, no Reino Unido e em vários países escandinavos.3 Não obstante, manteve-se no mercado em diversos países europeus, como Portugal, e da América Latina, com uma utilização muito relevante.2,3 Por este motivo, é importante relembrar alguns dos principais riscos que têm sido associados ao metamizol, de modo a proporcionar aconselhamento aos utentes que promova o seu uso seguro.

AGRANULOCITOSE

A agranulocitose é um efeito adverso raro, mas grave, reconhecidamente associado ao metamizol, reportado pela primeira vez nos EUA em1935.4 Pode manifestar-se durante o tratamento ou pouco tempo após o seu término. Não está relacionada com a dose utilizada e pode ocorrer em pessoas que já tenham tomado o fármaco anteriormente sem intercorrências.4,5 

Este risco tem sido avaliado periodicamente pelas autoridades de saúde.5,6 A avaliação mais recente, realizada em 2024 pelo Comité para a Avaliação de Riscos em Farmacovigilância (PRAC) da Agência Europeia do Medicamento (EMA), concluiu que o benefício dos medicamentos que contêm metamizol supera os riscos, nas indicações aprovadas.4,5 

Não obstante, devem ser cumpridas as seguintes recomendações, por forma a minimizar o risco e facilitar a identificação de possíveis casos: 
  • O metamizol está contraindicado em doentes com risco acrescido de desenvolver agranulocitose, nomeadamente doenças do sistema hematopoiético ou comprometimento da função da medula óssea, ou que tenham historial prévio associado à toma de metamizol ou de outras pirazolonas ou pirazolidinas,5 como p. ex a propifenazona.4 
  • Os doentes devem ser alertados para a necessidade de interromperem o tratamento e recorrerem imediatamente ao médico caso desenvolvam sintomas como febre, arrepios, dores de garganta e lesões nas mucosas, especialmente na boca, nariz e garganta ou na região genitais ou anal.4,5 
  • É importante salientar que estes sintomas podem passar despercebidos se o metamizol estiver a ser tomado como antipirético, ou concomitantemente com antibióticos, bem como a possibilidade de se manifestarem já depois da finalização do tratamento. 4,5

Dano hepático

Na sequência de uma avaliação periódica de segurança realizada ao metamizol, foi analisada pelo PRAC informação relativa a casos reportados de lesão hepática induzida por fármacos (DILI na sigla em inglês) possivelmente associados ao seu uso. A análise da evidência recolhida concluiu como razoavelmente possível a existência de relação entre a toma de metamizol e a indução de dano hepático, culminando com a recomendação de atualizar a informação dos medicamentos contendo metamizol.1

Deste modo, é importante ter em mente os principais aspetos a considerar para a mitigar este risco:
  • As lesões hepáticas induzidas pelo metamizol podem ocorrer alguns dias ou meses após a sua toma.7 
  • Apesar da raridade desta reação, a sua gravidade requer que os profissionais de saúde informem os doentes sobre os seus principais sintomas, para promover a deteção precoce. 7
  • Os principais sintomas indicativos de DILI incluem náuseas, vómitos, febre, fadiga, perda de apetite, urina de cor escura, fezes de cor clara, icterícia, prurido, erupção cutânea ou dor abdominal.1 
  • Perante o desenvolvimento destes sintomas, os doentes deverão interromper o tratamento e consultar um médico.7 
  • Doentes que tenham desenvolvido lesão hepática durante tratamento prévio com metamizol não deverão ser expostos novamente ao fármaco.1,7 

INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS

A revisão de dados de segurança anteriormente citada permitiu ainda evidenciar o efeito indutor enzimático do metamizol sobre substratos dos citocromos CYP2B6 e CYP3A4. Deste modo, a sua coadministração com fármacos como bupropiom, efavirenz, metadona, ácido valproico, ciclosporina, tacrolímus ou sertralina pode causar uma redução da respetiva concentração plasmática, com potencial impacto na resposta clínica.1 São possíveis interações com outros substratos destas enzimas, particularmente quando o metamizol é utilizado em doses elevadas.8 

O risco de agranulocitose pode ser superior caso o metamizol seja tomado concomitantemente com outros fármacos igualmente associados a este efeito adverso.8 

Requer igualmente precaução o uso por doentes tratados com ácido acetilsalicílico em dose baixa, uma vez que o metamizol pode reduzir a sua ação antiagregante plaquetária.8 

O uso racional do metamizol, na menor dose eficaz e pelo período estritamente necessário, de acordo com a informação aprovada e as recomendações formuladas pelas autoridades de saúde, permitirá minimizar eventuais riscos associados ao seu uso e garantir a segurança dos doentes. 

Referências bibliográficas


2. Rodríguez Ourensa MJ, Morales Martínez MA. ¿Prescribimos metamizol de modo seguro? Carta al Editor. Med Gen Fam. 2021[acedido a 1009-2025];10(6): 300-303. Disponível em: https://mgyf.org/wp-content/uploads/2022/01/MGYF2021_062.pdf

3. Björnsson ES. Liver injury associated with the analgetic drug metamizole. Br J Clin Pharmacol. 2020 Jul;86(7):1248-1250. doi: 10.1111/bcp.14294. 

4. Madurga Sanz M. Metamizol y riesgo de agranulocitosis. Conclusiones de la evaluación europea: su beneficio supera los riesgos en las indicaciones autorizadas. Panorama Actual Med. 2024 [acedido a 1009-2025]; 48(477): 1148-1150. Disponível em:

5. Medicamentos contendo metamizol – Atualização do RCM/FI para aumentar a sensibilização para o risco de agranulocitose e facilitar a sua deteção e diagnóstico precoces. Circular Informativa N.º 071/CD/550.20.001. Infarmed. Data: 09/09/2024 [acedido a 1009-2025].

6. Metamizol e risco de agranulocitose. Circular Informativa N.º 158/CD/550.20.001. Infarmed. Data: 12/11/2018 [acedido a 1009-2025]. Disponível em: https://www.infarmed.pt/documents/15786/2409571/Metamizol+e+risco+de+agranulocitose/b235fc4d-7768-4a3f-9eb4-28b1c8a6e67b?version=1.1

7. Comunicação Dirigida aos Profissionais de Saúde. Metamizol: Risco de lesão hepática induzida por fármacos. Data: 15 de dezembro de 2020 [acedido a 1009-2025]. Disponível em: https://extranet.infarmed.pt/web/fl/matedu/Metamizol/DHPC_metamizol_final_assinada_27-11-2020.pdf

8. Brinkman DJ, Hendriksen LC, Rigter IM, Hollmann MW. Pharmacology and relevant drug interactions of metamizole. Br J Clin Pharmacol. 2025 Jul;91(7):2095-2102. doi: 10.1002/bcp.70101.