Política de Cookies

Este site utiliza Cookies. Ao navegar, está a consentir o seu uso. Saiba mais

Compreendi

Como promover o uso seguro e eficaz dos sistemas transdérmicos?

  • Breves Questões Terapêuticas
26 Fevereiro 2026
Como promover o uso seguro e eficaz dos sistemas transdérmicos?
 

- A utilização de sistemas transdérmicos exige um aconselhamento cuidadoso para assegurar uma absorção consistente, evitar erros de medicação e reações cutâneas.

- O uso seguro requer o cumprimento das regras de utilização e a monitorização dos locais de aplicação.

- É importante informar sobre fatores externos associados a consequências adversas.


Os sistemas transdérmicos (ST) constituem uma forma de administração de medicamentos que permite a libertação controlada do fármaco através da pele para a circulação sistémica.1,2São amplamente utilizados em múltiplos contextos clínicos, incluindo controlo da dor, doenças neurológicas, cardiovasculares e cessação tabágica.1

Entre as principais vantagens dos ST destacam-se a melhoria da adesão terapêutica, a evicção do metabolismo de primeira passagem hepático, a obtenção de concentrações plasmáticas mais estáveis e a conveniência em doentes com disfagia ou limitações de acesso venoso.1-3 No entanto, a utilização destes sistemas apresenta igualmente desafios específicos, como variabilidade na absorção cutânea, riscos de erros de administração, reações cutâneas e exposição acidental ao fármaco.4,5Por conseguinte, a sua utilização eficaz e segura exige uma gestão cuidadosa.4


Aplicação e remoção correta

A absorção do fármaco pode variar em função do local de aplicação,3,5 devendo ser evitadas áreas com pregas cutâneas ou zonas enrugadas.5,6 A aplicação deverá ser idealmente realizada numa área de pele íntegra, limpa, seca e plana,1,6,7 preferencialmente desprovida de pelos, localizada em regiões com menor atrito e mobilidade.3,5 Em caso de pilosidade significativa, recomenda-se aparar os pelos com tesoura, evitando a depilação com lâmina, dado o risco de microlesões e irritação local.3,5

Devem ser respeitadas as recomendações específicas do fabricante relativamente aos locais contraindicados.3,5-7 Por exemplo, adesivos contendo estradiol não devem ser aplicados diretamente sobre a mama.3,6,7 A aplicação sobre a pele irritada, inflamada ou lesionada deve ser evitada, uma vez que pode potenciar a absorção do fármaco e agravar a reação cutânea.5,6 É igualmente recomendável evitar áreas recentemente expostas a óleos, sabonetes ou hidratantes,1 uma vez que estes produtos podem comprometer a adesão à pele e interferir com a absorção do fármaco.3,5

Em crianças e em indivíduos com défice cognitivo, a região superior/média do dorso pode ser um local preferencial, reduzindo o risco de remoção involuntária, manipulação ou ingestão acidental.5-7

A rotação sistemática dos locais de aplicação é essencial para reduzir o risco de irritação cutânea e minimizar potenciais alterações da absorção.1,2,5-7 O corte de adesivos é, de forma geral, contraindicado, exceto quando explicitamente autorizado pelo fabricante,2,5,7 devido à ausência de dados robustos quanto à precisão da dose, risco de contacto direto com a substância ativa e possibilidade de sobredosagem.2,3,6

Antes da aplicação de um novo ST, deve confirmar-se sempre a remoção completa do adesivo anterior,2,7 dado que a permanência inadvertida de um sistema previamente aplicado acarreta o risco de sobredosagem.1,2,4-6 No momento da substituição, o adesivo usado deve ser dobrado ao meio, com a face adesiva voltada para o interior. Deve proceder-se à lavagem das mãos após a manipulação, uma vez que podem persistir quantidades clinicamente relevantes de fármaco no adesivo após a remoção.1,3,5-7

Adicionalmente, não se recomenda escrever diretamente no adesivo com caneta ou lápis, pois tal pode comprometer a integridade do sistema e alterar a libertação do fármaco; 2,5,6 caso seja necessário registo, este deve ser efetuado na embalagem ou em plano terapêutico.
6


Problemas de adesão do ST

As dificuldades de adesão são relativamente frequentes, sobretudo em condições de calor, sudorese ou fricção.2,4,7 Quando o adesivo não se encontra em contacto total com a pele, pode ocorrer diminuição da eficácia terapêutica ou descolamento completo.2,4 Em situações de descolamento parcial, o adesivo pode ser reaplicado, desde que mantenha integridade estrutural e adesão suficiente. A remoção deliberada deve ser evitada, pois pode comprometer a capacidade de fixação.4

Em caso de adesão insuficiente, as estratégias recomendadas incluem:

  • Reforço das bordas com fita adesiva apropriada;1,4,6
  • Aplicação de penso transparente não oclusivo sobre o adesivo;1,4
  • Substituição por um novo adesivo, respeitando o intervalo de administração originalmente previsto.1,4,6

A utilização de pensos oclusivos para fixação não é recomendada, uma vez que pode alterar a taxa de absorção do fármaco.4 O adesivo não deve ser completamente coberto por materiais opacos, devendo manter-se visível para permitir identificação segura, particularmente em contexto de urgência.4


Segurança e reações adversas

As reações cutâneas locais constituem um dos efeitos adversos mais frequentes,1,3,4 manifestando-se tipicamente por prurido, eritema e sensação de queimadura na área de aplicação.1,3 A forma mais comum é a dermatite de contacto irritativa, embora também possa ocorrer dermatite de contacto alérgica.4 Esta última é frequentemente desencadeada pelos componentes adesivos, podendo, no entanto, estar associada à própria substância ativa ou a excipientes.1,4

Para minimizar o risco de reações cutâneas recomenda-se:

  • Cumprimento rigoroso das instruções do fabricante;3,4
  • Rotação dos locais de aplicação, permitindo recuperação cutânea adequada;3,4,6
  • Aplicação de hidratantes ou emolientes após a remoção do adesivo;4
  • Em casos selecionados, ponderação de corticosteroides tópicos para alívio sintomático.3,7

Se as reações cutâneas persistirem apesar da correta aplicação, remoção e cuidados cutâneos, deve considerar-se a substituição por outra marca, uma vez que o componente adesivo pode ser o principal agente causal.4 Quando não existirem alternativas viáveis, deverá ser efetuada reavaliação clínica e terapêutica pelo médico assistente.4


Influência do calor e risco de sobredosagem

A exposição ao calor promove vasodilatação, podendo aumentar significativamente a absorção do fármaco a partir do adesivo e, consequentemente, o risco de sobredosagem.3,5,7 Este risco é particularmente relevante em doentes piréticos ou durante períodos de calor intenso.5

Para minimizar o risco com fontes externas de calor deverá ser recomendado:

  • Banho ou duche com água morna (evitando água muito quente); 5,6
  • Evicção a exposição prolongada ao calor,6 através de banhos quentes longos, saunas, jacuzzis ou exposição solar direta.2,5
  • Evicção de fontes externas de calor sobre o adesivo, como almofadas térmicas, cobertores elétricos ou sacos de água quente.2,5-7


Ressonância magnética (RM) e risco de queimaduras

Alguns ST possuem uma camada metálica na face externa. Este material é condutor elétrico, podendo causar queimaduras se os ST forem utilizados durante uma RM.2-4,6,7 É essencial que seja avaliada previamente a necessidade de remoção do ST antes do exame, seguindo as informações específicas do medicamento.2,6 Contudo, dado que a sua identificação pode ser difícil, poderá ser prudente a remoção de todos os ST antes da realização de uma RM, salvo indicação contrária devidamente documentada.3,4,7

Apesar das vantagens clínicas dos ST, a sua utilização segura e eficaz requer vigilância contínua e articulação interprofissional.1 Neste contexto, o farmacêutico desempenha um papel determinante na validação da terapêutica, na prevenção de problemas relacionados com a medicação e na identificação de fatores de risco para reações adversas ou sobredosagem.1 Paralelamente, a sua intervenção no aconselhamento e educação do utente constitui um elemento essencial para assegurar uma administração correta, reduzir a ocorrência de eventos adversos e otimizar a adesão e os resultados clínicos.
1


Referências bibliográficas:

1. Khan S, Sharman T. Transdermal Medications. 2024 Dec 11. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025 Jan–. [acedido a 19-02-26]. Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK556035/

2. Durand C, Alhammad A, Willett KC. Practical considerations for optimal transdermal drug delivery. Am J Health Syst Pharm. 2012 Jan 15;69(2):116-24. doi: 10.2146/ajhp110158.

3. Ball AM, Smith KM. Optimizing transdermal drug therapy. Am J Health-Syst Pharm.
2008; 65(14): 1337-46.

4. Managing problems when using transdermal patches. Specialist Pharmacy Service. Last updated 17 November 2025.  [acedido a 19-02-26]. Disponível em:
https://www.sps.nhs.uk/articles/managing-problems-when-using-transdermal-patches/

5. Using transdermal patches safely in healthcare settings. Specialist Pharmacy Service. Last updated 17 July 2025. [acedido a 19-02-26]. Disponível em:
https://www.sps.nhs.uk/articles/using-transdermal-patches-safely-in-healthcare-settings/

6. Patchs: structure et aspects pratiques. Pharmacie des Hôpitaux Universitaires de Genève, créé le : 08.02.05, dernière révision le : 06.03.2023. [acedido a 19-02-26]. Disponível em:
https://www.hug.ch/pharmacie/recommandations/document/patchs

7.
Clinical Resource, Dos and Don’ts With Patches. Pharmacist’s Letter/Prescriber’s Letter. August 2021. [370803].