Quais os medicamentos que podem afetar a fertilidade masculina?
- Breves Questões Terapêuticas
![]() - Alguns medicamentos podem impactar a fertilidade masculina, afetando a qualidade do esperma.
- Um maior conhecimento sobre estes fármacos torna-se fundamental, sobretudo nos casais que pretendem engravidar. ![]() |
A redução e/ou supressão da espermatogénese é um fator comummente associado a infertilidade no sexo masculino.1 Existem diversas causas descritas, incluindo alterações genéticas. Contudo, os fatores adquiridos também desempenham um papel preponderante, entre os quais se incluem a exposição a condições ambientais adversas, o consumo de tabaco e o consumo excessivo de álcool.1 Adicionalmente, diversos fármacos podem comprometer a espermatogénese. Porém, os efeitos adversos na reprodução masculina muitas vezes não são adequadamente considerados, reconhecidos e investigados,2,3 conduzindo a uma dificuldade temporária ou persistente na conceção.1-3
São descritos alguns fármacos com potenciais efeitos adversos na fertilidade masculina (lista não exaustiva):
Inibidores da 5-alfa-redutase (5-ARI).1-4 A enzima 5-ARI é responsável pela conversão da testosterona em di-hidrotestosterona. Uma diminuição na expressão de di-hidrotestosterona pode ter efeitos adversos nos parâmetros do esperma e na função reprodutiva masculina.3,4
O uso prolongado de finasterida, mesmo em doses baixas,2,3 e de dutasterida, tem sido associado a uma redução na qualidade, contagem3 e motilidade dos espermatozoides.1,2 A toma destes medicamentos pode, assim, conduzir a uma diminuição da fertilidade nos homens cuja qualidade do esperma já esteja prejudicada.2 Estes efeitos são reversíveis após interrupção da medicação.2,3 No caso da finasterida é reportada a reversibilidade dos efeitos entre 3-4 meses após a sua suspensão.4 Distúrbios eréteis e, mais raramente, ejaculatórios, também podem surgir durante o tratamento, todavia, o seu mecanismo não se encontra claramente estabelecido.3,4
Bloqueadores alfa-adrenérgicos. O uso de tansulosina parece resultar numa alteração reversível do esperma, caracterizada pela diminuição do volume ejaculado, contagem, motilidade e morfologia dos espermatozoides.3,4 A tansulosina e a silodosina causam ainda frequentemente distúrbios ejaculatórios, como ejaculação retrógrada ou anejaculação.3,4 Os seus efeitos são reversíveis após descontinuação do fármaco.3
Antidepressores. Alguns fármacos desta classe, particularmente, os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS),1,2,4 têm sido associados a efeitos adversos na qualidade do esperma, nomeadamente na concentração, motilidade e morfologia dos espermatozoides.2,4 Os efeitos são reversíveis após a interrupção do medicamento.1,2,4 A paroxetina, em particular, parece aumentar a fragmentação do ADN dos espermatozoides.3,4
Estudos de pequena dimensão mostraram ainda que os antidepressores tricíclicos parecem ter efeitos semelhantes aos ISRS, com redução do volume e motilidade espermática, tendo sido demonstrado in vitro que estas alterações ocorrem de forma dependente da dose.3
Sulfassalazina. Pode ocorrer diminuição na quantidade de espermatozoides presentes no esperma e infertilidade em homens tratados com sulfassalazina1-4 (efeitos relacionados com a dose).4 O mecanismo exato deste efeito é desconhecido, mas um estudo em animais mostrou que o uso de sulfassalazina resultou em níveis aumentados de espécies reativas de oxigénio no interior dos testículos, sugerindo um potencial papel de stress oxidativo no dano do esperma.3
Os seus efeitos são reversíveis dentro de 2-3 meses após a interrupção do tratamento.2,4
Sirolímus. A sua toma está associada a efeitos adversos na qualidade do esperma,2,4 nomeadamente azoospermia, devido a distrofia dos túbulos seminíferos.1,4 O sirolímus bloqueia a espermatogénese ao nível das espermatogónias, diminuindo gradativamente o número de espermatozoides.4 Também é responsável pela redução da expressão da proteína StAR (proteína reguladora da esteroidogénese aguda), que desempenha um papel no transporte de colesterol, um percursor da síntese de testosterona nas células de Leydig, resultando na diminuição do nível de testosterona intratesticular, da qual depende uma correta espermatogénese.4 Na maioria dos casos, estes efeitos são reversíveis após a suspensão do medicamento.1,2,4
Nitrofurantoína. Em doses elevadas, pode interromper a maturação das células germinativas, impedindo a absorção de hidratos de carbono e oxigénio, necessários para o correto funcionamento das células envolvidas no processo de espermatogénese.3,4 Os efeitos nos parâmetros do esperma caracterizam-se por diminuição na contagem1,3 e motilidade dos espermatozoides.3,4 Os efeitos são reversíveis após suspensão do tratamento.4
Bloqueadores dos canais de cálcio. O cálcio é fundamental para a função espermática, particularmente para a motilidade, capacitação e reação acrossómica dos espermatozoides.3 Apesar do efeito clínico desta classe de fármacos nos parâmetros do esperma não estar clara,3 acredita-se que os bloqueadores dos canais de cálcio possam reduzir a capacidade de fertilização1 e diminuir a viabilidade e motilidade dos espermatozoides.4
Diuréticos. A espironolactona tem um efeito antiandrogénico3 periférico ao inibir os citocromos adrenais e testiculares P450 que estão envolvidos na biossíntese de testosterona.3,4 Além disso, acredita-se que evite que os andrógenos se liguem às células-alvo através de um fenómeno de competição ao nível do recetor.4 Estas propriedades antiandrogénicas podem causar disfunção erétil e diminuição da libido,4 tendo sido ainda observado um comprometimento da motilidade dos espermatozoides.3,4
Os medicamentos representam um fator exógeno encontrado, com alguma frequência, na avaliação de homens inférteis. Porém, o conhecimento dos seus reais efeitos na função reprodutiva masculina é, em muitos casos, limitado, salvo algumas exceções bem definidas.3,4 Um maior conhecimento sobre fármacos possivelmente implicados torna-se fundamental, sobretudo na orientação dos casais que pretendem engravidar, onde deverão ser analisados os riscos e benefícios associados ao seu uso, e discutidas possíveis alternativas terapêuticas com menor impacto na fertilidade, sempre que apropriado.
Referências bibliográficas:
- Ding J, Shang X, Zhang Z, Jing H, Shao J, Fei Q, Rayburn ER, Li H. FDA-approved medications that impair human spermatogenesis. Oncotarget. 2017 Feb 7;8(6):10714-10725. doi: 10.18632/oncotarget.12956.
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Futurs pères et exposition médicamenteuse: quels sont les risques? Folia Pharmacotherapeutica mai 2024;51(05):1-3. [acedido a 17-06-24]. Disponível em: https://www.cbip.be/fr/articles/4322.pdf?folia=4319&version=long
- Semet M, Paci M, Saïas-Magnan J, Metzler-Guillemain C, Boissier R, Lejeune H, Perrin J. The impact of drugs on male fertility: a review. Andrology. 2017 Jul;5(4):640-663. doi: 10.1111/andr.12366.

