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Qual a evidência para o uso da melatonina em crianças?

  • Breves Questões Terapêuticas
29 Maio 2025
Qual a evidência para o uso da melatonina em crianças?
 

- Os transtornos do sono são muito comuns em crianças e adolescentes.

- A abordagem de primeira linha deverá consistir em medidas de higiene do sono e estratégias comportamentais.

- O uso de melatonina em crianças poderá ser adequado; contudo, requer avaliação e supervisão médica.




O sono é um fator crítico para a saúde e o desenvolvimento infantil.1,2 O sono inadequado e de fraca qualidade pode impactar o desenvolvimento neurocognitivo e conduzir a problemas comportamentais e emocionais, podendo comprometer também o funcionamento e bem-estar dos pais e da família.1


Os transtornos do sono, principalmente a insónia inicial (dificuldade em adormecer),1 são muito comuns em crianças e adolescentes e são um motivo frequente de recurso aos profissionais de saúde.1,2

A melatonina é uma hormona endógena sintetizada pela glândula pineal, desempenhando um papel fundamental na regulação do ciclo circadiano.1-3

A sua síntese é estimulada pela escuridão, iniciando-se após o anoitecer, e suprimida pela luz.4

A forma sintética da melatonina está aprovada como medicamento em diversos países,1,2 nomeadamente em Portugal. Porém, em doses baixas, é considerada um suplemento alimentar,1e tem vindo a ser cada vez mais utilizada, a nível global, para tratar transtornos do sono em crianças.2,3 Está disponível numa ampla variedade de doses e formulações, como soluções orais, comprimidos ou gomas.2Isto conduz a que os progenitores a considerem uma opção "natural” e "segura” para o alívio da insónia em crianças.1-3,5

Eficácia e segurança da melatonina em pediatria

A evidência acerca da eficácia da melatonina é robusta no tratamento da insónia em crianças e adolescentes com alterações do neurodesenvolvimento ou perturbação de hiperatividade com défice de atenção,1-3 existindo medicamentos aprovados para esta indicação.

Os dados existentes em crianças com um desenvolvimento neurotípico são bastante limitados. A maioria dos ensaios aleatorizados mostrou um efeito positivo, especialmente no tempo para adormecer. Os efeitos adversos reportados são geralmente ligeiros1-3 e incluem sedação, cefaleias,1-4 náuseas, alterações do humor,1-3 fadiga,1,3 enurese,2,4 rash,3,4problemas gastrointestinais,1,4 alterações cognitivas, vermelhidão ocular, na face e nas orelhas,1 pesadelos ou sonhos vívidos,2entre outros.

A generalização do uso da melatonina para promover o sono em crianças tem, porém, suscitado preocupações crescentes acerca da sua segurança, especialmente sobre possíveis efeitos a longo prazo no desenvolvimento da puberdade,1-4 impacto na saúde óssea, função imunitária, cardiovascular e metabólica.2

Os dados recolhidos em contexto real sugerem que a melatonina seja utilizada por períodos prolongados. Contudo, são escassos os ensaios prospetivos de longa duração e com número adequado de participantes que avaliem potenciais consequências nos parâmetros acima referidos,2,3 dificultando a generalização dos resultados.2 Os poucos estudos existentes não indiciaram a existência de efeitos adversos graves;2,3 porém, no que concerne ao desenvolvimento da puberdade, os achados reportados são heterogéneos, o que pode ser devido a diferenças metodológicas.3 Por outro lado, a maioria dos estudos foi realizada em crianças em idade escolar e adolescentes, pelo que os seus resultados, tanto quanto à eficácia, como à segurança, não são necessariamente aplicáveis a crianças em idade pré-escolar, nas quais a melatonina tem vindo a ser cada vez mais utilizada.2

Orientações para o tratamento da insónia em crianças

Existem recomendações internacionais recentes acerca do uso de melatonina para tratamento da insónia em crianças com alterações do neurodesenvolvimento6 ou desenvolvimento neurotípico.5Todas convergem na adoção inicial de medidas não farmacológicas, como medidas de higiene do sono e terapia cognitiva e comportamental. A adição de melatonina apenas deve ser ponderada caso estas intervenções se revelem ineficazes,1,2 por recomendação e sob supervisão de um profissional médico5,6 e nunca em substituição da adoção de boas práticas de sono.1 O uso de suplementos alimentares não é adequado para o tratamento da insónia na população pediátrica.7

A avaliação e tratamento da insónia inicial em crianças deve ser feita de acordo com uma abordagem sequencial:

- Avaliação médica, para despistar a existência de outros transtornos do sono, ou identificar e gerir condições clínicas ou comportamentais que permitam justificar a ocorrência de insónia.1,2,5,6 Manter um diário do sono pode auxiliar a compreender a rotina da hora de dormir, o padrão de sono e a sua gestão por parte dos progenitores.1,5

- A implementação de medidas comportamentais, mediante a educação dos pais e cuidadores no que concerne a práticas saudáveis de sono, deve ser a abordagem de primeira linha em praticamente todas as circunstâncias,1,2,4-6 existindo ampla evidência da sua eficácia a curto e longo prazo.2

As medidas de higiene do sono incluem:

·       Implementar um horário e uma rotina consistentes para a hora de deitar, que deve ser mantida aos fins de semana1-4 e apropriada à idade da criança;2,5


·       Promover a exposição à luz solar e a atividade física durante o dia, de modo a sincronizar o ciclo circadiano;1

·       Remover do quarto ecrãs e outras fontes de luz;1,2

·       Limitar a exposição a ecrãs1-4 uma a duas horas antes da hora de deitar;1

·       Limitar as sestas;1,4

·       Evitar padrões de dieta que dificultem o sono;1

·       Evitar a prática de exercício físico nas duas horas anteriores à hora de dormir.1

- Se as estratégias comportamentais forem insuficientes ou existirem dificuldades na sua implementação, poderá associar-se a toma de melatonina apenas por recomendação e sob supervisão médicas.1,2,5,6 

- A melatonina deve ser iniciada na dose mais baixa possível e titulada até à menor dose eficaz, administrada 30-60 minutos antes da hora de dormir, pelo período mais curto possível.1,5,6

- Em crianças neurotípicas, deve considerar-se a sua suspensão após um período de três a quatro semanas.1O uso de longa duração (mais de 3-6 meses) não é indicado na larga maioria destas crianças.5

- Não existem estudos sobre a segurança da melatonina em crianças com idade inferior a dois anos, pelo que o uso deve ser evitado.1,5 Somente em situações muito raras é que a melatonina poderá ser utilizada por crianças com idade inferior a dois anos e sem alterações do neurodesenvolvimento, uma vez que, neste contexto, a larga maioria das situações de insónia tem causa comportamental.5 Em crianças com alterações do neurodesenvolvimento, o uso requer precaução e avaliação prévia por um especialista.6

- A melatonina não deve ser usada para melhorar a qualidade do sono em crianças sem alterações do sono, ou para promover o adormecimento em adolescentes que tenham horários escolares muito matutinos.5

Considerando os múltiplos efeitos potenciais a longo prazo da melatonina no sistema nervoso central, endócrino e em diversas funções fisiológicas,2,7 é necessária uma maior compreensão acerca do seu possível impacto sobre o desenvolvimento infantil. É importante reconhecer os motivos para o seu uso e assim promover uma melhor educação das famílias e dos profissionais de saúde e uma implementação mais efetiva das intervenções comportamentais.2

 

Referências bibliográficas:

1. Bruni O, Breda M, Nobili L, Fietze I, Capdevila ORS, Gronfier C. European expert guidance on management of sleep onset insomnia and melatonin use in typically developing children. Eur J Pediatr. 2024 Jul;183(7):2955-2964. doi: 10.1007/s00431-024-05556-w.

2. Owens J. Melatonin use in the pediatric population: an evolving global concern. World J Pediatr. 2025 Apr 30. doi: 10.1007/s12519-025-00896-5.

3. Melatonin Task Force; Owens J, Simakajornboon N, Kotagal S, Gringras P; International Pediatric Sleep Association (IPSA) Practice and Policy Committee; IPSA Board of Directors. Melatonin use in managing insomnia in typically developing (TD) children: A technical report. Sleep Med. 2025 Apr;128:89-94. doi: 10.1016/j.sleep.2025.01.031.

4. Melatonin for Insomnia in Children. JAMA. 2020 Oct 20;324(15):1559-1560. doi: 10.1001/jama.2020.12193.

5. Melatonin Task Force; Owens J, Simakajornboon N, Kotagal S, Gringras P; International Pediatric Sleep Association (IPSA) Practice and Policy Committee and the IPSA Board of Directors. Melatonin use in typically developing (TD) children: International Pediatric Sleep Association (IPSA) Expert Consensus Recommendations for Healthcare Providers. Sleep Med. 2025 Apr;128:127-129. doi: 10.1016/j.sleep.2025.02.002.

6. Kotagal S, Malow B, Spruyt K, Wang G, Bolaños Almeida CE, Tavera Saldaña LM, Blunden S, Narang I, Ipsiroglu OS, Bruni O, Strazisar BG, Simakajornboon N, Nunes ML, Cortese S. Melatonin use in managing insomnia in children with autism and other neurogenetic disorders - An assessment by the international pediatric sleep association (IPSA). Sleep Med. 2024 Jul;119:222-228. doi: 10.1016/j.sleep.2024.04.008.

7. Definição de fronteiras entre medicamentos e suplementos alimentares – Parecer Melatonina. Infarmed; Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV). 2016 [acedido a 23-05-2025]. Disponível em:

https://www.infarmed.pt/documents/15786/1541422/Melatonina_final_DGAV_26072016_PB.PDF/1555a5fc-e444-4ff5-be47-2cf39c985afe