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Que antidepressores apresentam melhor perfil de segurança cardiovascular em pessoas com doença coronária?

  • Breves Questões Terapêuticas
30 Julho 2025
Que antidepressores apresentam melhor perfil de segurança cardiovascular em pessoas com doença coronária?
 

- A depressão é frequentemente observada em pessoas com doença coronária (DC).

A sertralina é considerada a opção mais segura pela sua boa tolerabilidade cardiovascular.

- Os antidepressores tricíclicos devem ser evitados devido aos seus efeitos adversos cardiovasculares, como arritmias, hipotensão ortostática e prolongamento do intervalo QT.

A evidência proveniente de diversos estudos clínicos e populacionais tem demonstrado uma associação bidirecional entre a depressão e a DC.1-3 A depressão é frequentemente observada em pessoas com DC, constituindo um fator prognóstico independente associado a uma evolução clínica desfavorável.2-5 Adicionalmente, existe um consenso crescente quanto a considerar a depressão como um fator de risco modificável na DC, o que reforça a necessidade de um diagnóstico precoce e de uma abordagem terapêutica apropriada.2,3,5

Os antidepressores representam uma opção terapêutica eficaz no tratamento da depressão em pessoas com DC, particularmente em casos de depressão moderada a grave.2 Muitos destes fármacos, porém, apresentam efeitos adversos cardiovasculares, o que influencia a sua seleção.1 Entre os potenciais efeitos indesejáveis incluem-se alterações da condução cardíaca, arritmias, taquicardia, hipotensão ortostática e hipertensão arterial.1-5

É seguidamente enunciado, de forma não exaustiva, o perfil de segurança cardiovascular de diversas classes de antidepressores.

Inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS)

Devido ao seu mecanismo de ação específico, apresentam poucos efeitos adversos cardiovasculares, sendo, por isso, considerados a terapêutica de primeira linha em doentes com DC.2-5 A sertralina é apontada como a opção mais segura, dada a sua boa tolerabilidade cardiovascular e ausência de interações relevantes com fármacos cardiovasculares.1-5 Outras alternativas seguras incluem a fluoxetina1-5 e a paroxetina.1,2,4,5 Por outro lado, o escitalopram e o citalopram estão associados a prolongamento do intervalo QT de forma dependente da dose,1-3 pelo que deverão ser utilizados com precaução em doentes com risco elevado de prolongamento do intervalo QT ou de Torsades de Pointes, nomeadamente em casos de insuficiência cardíaca congestiva, enfarte agudo do miocárdio recente, bradiarritmias, hipocaliemia, hipomagnesemia ou síndrome do QT longo congénito.2

É importante ainda referir que a utilização concomitante dos ISRS com ácido acetilsalicílico e outros antiagregantes plaquetários ou anticoagulantes pode aumentar o risco de hemorragia,1-5 particularmente em doentes idosos.1-3


Antidepressores tricíclicos (ADT)

Apesar da sua reconhecida eficácia, estão associados a alterações eletrocardiográficas importantes, como prolongamento dos intervalos PR e QT,1,2,4 devido ao seu efeito inibitório sobre os canais de potássio nos miócitos,4 o que pode conduzir a arritmias ventriculares malignas e morte súbita cardíaca.2  Outros efeitos adversos conhecidos incluem arritmias, taquicardia1,2,4,5 e hipotensão postural.1,2,4,5 A sua cardiotoxicidade é particularmente relevante em situações de sobredosagem.1 Algumas interações podem ainda aumentar este risco, como alterações eletrolíticas causadas pelo uso concomitante de diuréticos.1

Por estas razões, os ADT devem ser evitados em doentes com DC,1,4,5 especialmente na presença de distúrbios de condução cardíaca, insuficiência cardíaca congestiva, enfarte recente ou em idade avançada.2 A mianserina aparenta apresentar um menor risco; todavia, deve ainda assim ser utilizada com precaução.1


A suspensão abrupta destes fármacos em doentes que apresentem eventos cardíacos ou prolongamento do intervalo QT pode aumentar o risco de arritmias, pelo que a sua descontinuação deverá ser feita de forma gradual.2


Inibidores da recaptação da serotonina e noradrenalina

A venlafaxina e a duloxetina, têm sido associadas a eventos adversos como hipotensão ortostática,1,2 arritmias1 e aumento da pressão arterial dependente da dose,1,2,5 o que constitui uma preocupação especial em indivíduos com DC, sobretudo naqueles com hipertensão pré-existente.1,2 A reboxetina, por sua vez, pode causar taquicardia, palpitações e hipotensão ortostática dependente da dose, sendo recomendada a monitorização da pressão arterial durante o seu uso.1

Inibidores da Monoamina Oxidase (IMAO)

Devem geralmente ser evitados em pessoas com DC.1,5 Estes fármacos podem provocar hipotensão, apresentam interações medicamentosas e alimentares graves, e estão também associados ao desenvolvimento de arritmias, recomendando-se precaução e eventual monitorização eletrocardiográfica em doentes de risco.1,5

A moclobemida, pela sua seletividade e menor potencial de interação, é considerada uma opção de menor risco dentro desta classe.1


Outros antidepressores

Mirtazapina. Tem-se revelado uma opção segura para pessoas com DC,1,4 embora possa provocar hipotensão ortostática2,3 e prolongamento ligeiro do intervalo QT.2 A mirtazapina está associada a aumento ponderal,2,4,5 pelo que a sua utilização deve ser cuidadosamente avaliada em indivíduos com excesso de peso ou obesidade.5

Trazodona. Pode causar hipotensão ortostática e prolongamento ligeiro a moderado do intervalo QT,2,3 pelo que deverá ser utilizada com precaução em pessoas com DC, bloqueios atrioventriculares ou outras perturbações de condução, bem como em doentes pós-enfarte do miocárdio.2

Bupropiom. Pode constituir uma alternativa para doentes que apresentem disfunção sexual induzida pelos ISRS ou que procurem apoio na cessação tabágica; no entanto,2,5 o seu uso deve ser feito com precaução em indivíduos com angina ou hipertensão não controladas.5

Os profissionais de saúde devem estar conscientes da elevada prevalência de depressão em pessoas com DC, sendo recomendada a realização de rastreios para despiste da depressão nestes doentes2,3 com o intuito de garantir o início atempado e adequado do tratamento farmacológico, por forma a otimizar os resultados clínicos e reduzir as taxas de morbilidade e mortalidade.3 A terapêutica farmacológica deve ser cuidadosamente selecionada, tendo em conta o perfil de risco cardiovascular.1,5

Adicionalmente, deverão ainda considerar-se intervenções não farmacológicas, como a prática de exercício físico e a psicoterapia, enquanto opções complementares no tratamento destes doentes.2,4,5

Referências bibliográficas:

1. Choosing an antidepressant for people with coronary heart disease. Specialist Pharmacy Service. Last updated 29 April 2025. [acedido a 30-06-25].  Disponível em: https://www.sps.nhs.uk/articles/choosing-an-antidepressant-for-people-with-coronary-heart-disease/

2. Vaccarino V, Badimon L, Bremner JD, Cenko E, Cubedo J, Dorobantu M, Duncker DJ, Koller A, Manfrini O, Milicic D, Padro T, Pries AR, Quyyumi AA, Tousoulis D, Trifunovic D, Vasiljevic Z, de Wit C, Bugiardini R; ESC Scientific Document Group Reviewers. Depression and coronary heart disease: 2018 position paper of the ESC working group on coronary pathophysiology and microcirculation. Eur Heart J. 2020 May 1;41(17):1687-1696. doi: 10.1093/eurheartj/ehy913.

3. Xu L, Zhai X, Shi D, Zhang Y. Depression and coronary heart disease: mechanisms, interventions, and treatments. Front Psychiatry. 2024 Feb 9;15:1328048. doi: 10.3389/fpsyt.2024.1328048.

4. Akosile W, Tiyatiye B, Colquhoun D, Young R. Management of depression in patients with coronary artery disease: A systematic review. Asian J Psychiatr. 2023 May;83:103534. doi: 10.1016/j.ajp.2023.103534.

5. Teply RM, Packard KA, White ND, Hilleman DE, DiNicolantonio JJ. Treatment of Depression in Patients with Concomitant Cardiac Disease. Prog Cardiovasc Dis. 2016 Mar-Apr;58(5):514-28. doi: 10.1016/j.pcad.2015.11.003.