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Compreendi

Que precauções considerar no uso de agentes de contraste iodados em indivíduos com diabetes mellitus?

  • Breves Questões Terapêuticas
24 Outubro 2025
Que precauções considerar no uso de agentes de contraste iodados em indivíduos com diabetes mellitus?
 

- O risco de lesão renal aguda induzida por agentes de contraste é superior em doentes diabéticos, sobretudo com alterações prévias da função renal.

A deterioração da função renal pode levar à acumulação de metformina e aumentar o risco de acidose láctica.

- A prevenção requer avaliação da função renal, hidratação, eventual suspensão da metformina e seleção criteriosa do agente de contraste.

A administração de agentes de contraste iodados em imagiologia é uma prática clínica amplamente estabelecida.1-3 A lesão renal aguda (LRA) induzida por contraste representa a principal forma de LRA iatrogénica.1,4 O risco é particularmente relevante quando o contraste iodado é administrado por via intravascular, como ocorre em exames de tomografia computorizada e em procedimentos angiográficos.1,2,4

A fisiopatologia da LRA induzida por contraste não está totalmente esclarecida, mas envolve três mecanismos principais: vasoconstrição renal e hipóxia medular, toxicidade tubular direta e a formação de espécies reativas de oxigénio (stress oxidativo), culminando em apoptose das células endoteliais e epiteliais, com consequente redução da taxa de filtração glomerular (TFG).1-3

Diversos fatores aumentam o risco de LRA pós-contraste iodado, incluindo:

  • Alteração pré-existente da função renal. Este constitui o principal fator de risco, sendo particularmente elevado em doentes com uma TFG estimada (TFGe) ≤ 30 mL/min/1,73 m²;1-6
  • Presença de diabetes mellitus (DM);1-6
  • Existência de LRA (conhecida ou não);1,4,5
  • Administração de doses elevadas de contraste intra-arterial de primeira passagem renal;1-5
  • Utilização de meios de contraste iodados de elevada osmolalidade;1,4,5
  • Múltiplas administrações de contraste nas últimas 48 a 72 horas;1,2,4
  • Terapêutica com fármacos potencialmente nefrotóxicos em pessoas com doença renal crónica antes da administração do contraste iodado.1,2,4


Diabetes mellitus como fator de risco

A DM está associada a risco de LRA induzida por contraste iodado, particularmente em doentes com diminuição prévia da função renal,1,3 uma complicação que afeta cerca de 20% a 40% das pessoas com DM.1

No contexto farmacoterapêutico, a metformina pode também contribuir para o risco de LRA em doentes submetidos a contraste iodado.1,4,6 Este fármaco constitui a terapêutica de primeira linha no tratamento da DM24,6 e é eliminado exclusivamente pelos rins, requerendo ajuste de dose em função da TFGe.1 A deterioração da função renal pode comprometer a sua excreção e conduzir a acumulação plasmática, aumentando o risco de acidose láctica, uma complicação rara, mas potencialmente grave.
1,4,6

Estratégias para a prevenção da LRA pós-contraste iodado

A ocorrência de LRA pós-contraste iodado pode ser prevenida, encontrando-se disponíveis diversas recomendações na literatura.1,4

  • Avaliação da função renal.1,2,4,5 A TFGe deve ser avaliada até sete dias antes da administração de contraste iodado em doentes com doença aguda,a,f agravamento súbito de doença crónica1,4 ou em contexto de internamento.1,2,4 Nos restantes doentes, a avaliação deve ser realizada nos três meses prévios ao procedimento.1,2
  • Hidratação adequada.1,2,4-6 Com base em diversos ensaios clínicos aleatorizados e controlados, a European Society of Urogenital Radiology (ESUR) recomenda que os doentes com fatores de risco realizem profilaxia com hidratação endovenosa antes da administração de contraste iodado.1,2,4,5 Esta é feita através de protocolos baseados em soro fisiológico e em bicarbonato de sódio, sendo ambos igualmente eficazes na prevenção deste tipo de complicação.1,2 A hidratação oral não é recomendada como única medida preventiva,1,2,4 mas pode ser utilizada como complemento à hidratação endovenosa.2,4,5Suspensão temporária da metformina.1,2,4,5 As orientações relativas à suspensão da metformina em doentes submetidos a exames com administração de contraste iodado não são totalmente consensuais;1,6 contudo, todas salientam que a diminuição da TFGe é um fator determinante para a decisão de suspensão do fármaco.1,2,4-6
  • De acordo com a ESUR, o Colégio Americano de Radiologia (ACR) e a Sociedade Holandesa de Radiologia (SHR) a metformina deve ser suspensa no momento da administração do contraste nos doentes com TFGe inferior a 30 mL/min/1,73 m² ou sempre que exista lesão renal aguda.1,4-6 Nestes casos, recomenda-se a reavaliação da função renal ao fim de 48 horas, sendo o fármaco apenas reiniciado se a TFGe se mantiver estável.1,4-6 É de salientar que a administração intra-arterial de contraste com primeira passagem renal constitui, por si só, indicação para suspensão da metformina, independentemente da função renal basal.1,4,6 A Sociedade Sueca de Radiologia Urogenital (SSUR) propõe critérios ligeiramente diferentes, recomendando a suspensão da metformina em doentes com TFGe inferior a 45 mL/min/1,73 m², com reavaliação da função renal 48 horas após o procedimento e reinício da terapêutica se a TFGe se mantiver estável. A SSUR acrescenta ainda que a metformina deve ser suspensa sempre que a relação entre a dose de contraste (em gramas) e a TFGe seja igual ou superior a um, em situações de LRA ou risco acrescido de a desenvolver, bem como em todos os casos de administração intra-arterial com primeira passagem renal.1
  • Seleção do agente de contraste. A escolha deve ser criteriosa, ponderando se a utilização de contraste iodado é imprescindível à obtenção do diagnóstico.4,5 Deve ser dada preferência aos de baixa osmolalidade ou de iso-osmolalidade, uma vez que apresentam melhor perfil de segurança renal.1,2,4,5 Além disso, deve ser evitada a administração repetida num curto intervalo de tempo, nomeadamente entre 48 a 72 horas, de forma a reduzir o risco acumulado de LRA.2

A relação benefício/risco da administração de contraste iodado deve ser cuidadosamente ponderada em doentes com DM e/ou outros fatores de risco para LRA.2,5 Esta avaliação deve ter como objetivo prevenir a ocorrência de LRA iatrogénica, através da implementação de estratégias preventivas adequadas, mas, ao mesmo tempo, assegurar que estes doentes não são privados de exames de imagem essenciais para o estabelecimento de um diagnóstico preciso e para a definição de uma estratégia terapêutica eficaz.

Referências bibliográficas:

1. Donato S, Simões H, Donato P. Proposta de Protocolo para Redução dos Riscos e Otimização da Sensibilidade nos Exames de Imagem em Pessoas com Diabetes [Proposal for a Guideline of Risk Reduction and Sensitivity Optimization in Imaging Tests for People with Diabetes]. Acta Med Port. 2021 May 2;34(5):388-394. Portuguese. doi: 10.20344/amp.15486.  

2. Cousin F, Moïse M, Ilbert C, Meunier P, Jouret F. Prévention de la néphropathie aux produits de contraste iodés [Prevention of contrast-induced nephropathy]. Rev Med Liege. 2024 Jun;79(5-6):418-423. French. [acedido a 26-09-25]. Disponível em: https://rmlg.uliege.be/article/3936?lang=en 

3. Li Y, Ren K. The Mechanism of Contrast-Induced Acute Kidney Injury and Its Association with Diabetes Mellitus. Contrast Media Mol Imaging. 2020 Jun 23;2020:3295176. doi: 10.1155/2020/3295176.