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RADIS alerta para fragilidades do sistema de saúde e defende reforço na prevenção, integração de cuidados e inovação clínica

13 Novembro 2025
RADIS alerta para fragilidades do sistema de saúde e defende reforço na prevenção, integração de cuidados e inovação clínica

Decorreu ontem, no CCB, em Lisboa, a apresentação do Relatório de Avaliação de Desempenho e Impacto do Sistema de Saúde (RADIS), um estudo promovido pela Convenção Nacional de Saúde (CNS) que oferece uma visão abrangente e transparente sobre o funcionamento do sistema de saúde em Portugal.
Desenvolvido por uma equipa multidisciplinar, o RADIS assenta em três premissas-chave: a pessoa no centro do sistema de saúde, o valor em saúde e a promoção da saúde e do bem-estar. O relatório reúne 35 indicadores-chave e analisa dados públicos de múltiplas fontes, proporcionando uma base factual para reflexão e melhoria do sistema de saúde em Portugal.

A apresentação contou com a presença da Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, que abriu a sessão juntamente com o presidente da CNS, Eurico Castro Alves. Após a apresentação dos dados, seguiu-se um debate moderado pelo presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada, Oscar Gaspar, que reuniu um painel diversificado de especialistas, entre os quais o Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, Helder Mota Filipe, mas também Alexandre Guedes da Silva, presidente da Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla, Carlos Martins, presidente da Unidade Local de Saúde (ULS) Santa Maria, Ema Paulino, presidente da Associação Nacional das Farmácias, e João Almeida Lopes, presidente do Conselho da Saúde, Prevenção e Bem-estar da CIP.

A OF congratulou a publicação deste estudo, com dados concretos sobre a situação atual do SNS. No caso concreto dos farmacêuticos, o Bastonário da OF destacou o aumento que tem havido no número de farmacêuticos em Portugal e recordou a importância da criação da Carreira Farmacêutica e da Residência Farmacêutica no SNS. Atualmente existem "cerca de 1.000 farmacêuticos hospitalares  no SNS e quase 600 residentes em formação", o que significa que brevemente será possível "dotar o sistema do número de farmacêuticos necessários, desde que o SNS garanta a abertura de vagas para reter os farmacêuticos residentes do SNS". 

Helder Mota Filipe aproveitou o momento para lançar críticas ao atual regime de dispensa em proximidade, afirmando que deve haver uma "liderança forte no processo", para garantir a implementação efetiva da medida".

Para além da necessidade de integrar os diferentes profissionais nos vários níveis de cuidados, o Bastonário defendeu também uma reorganização mais ampla das funções em saúde, afirmando que "é necessário repensar o papel de cada um dos profissionais para garantir os melhores resultados em saúde". O objetivo é aumentar a produtividade e a qualidade da prestação, mais do que os interesses diretos de cada profissão, apontando para a redistribuição de tarefas, "task shifting", e a partilha de competências, "tasks sharing", como um caminho a seguir.

Outra das conclusões importantes apontadas é que o país mantém uma das maiores despesas em saúde da Europa em proporção do PIB, mas continua abaixo da média europeia em despesa per capita, o que significa que o esforço financeiro é elevado, embora com menor capacidade de investimento individual. A estrutura da despesa mostra subfinanciamento da prevenção e elevado peso dos pagamentos diretos pelas famílias.

O SNS 24 surge no relatório como um dos instrumentos mais relevantes de acessibilidade e transformação digital: em 2025, projeta-se que ultrapasse 5,8 milhões de exigindo reforço de equipas e integração de novos perfis técnicos, como os farmacêuticos, na triagem e aconselhamento clínico.

O RADIS 2025 indica também que a captação de novos ensaios clínicos ainda está aquém do potencial europeu. Os ensaios clínicos são uma componente científica e económica essencial, que gera acesso precoce a terapias inovadoras, formação técnica dos profissionais, investimento estrangeiro direto e retorno económico e social mensurável. Neste sentido, a OF defende que Portugal deve definir como meta estar entre os principais polos europeus de investigação clínica até 2030, reduzindo os prazos médios de aprovação e garantindo a participação ativa das unidades do SNS, universidades, associações de doentes e farmacêuticos.

A despesa com medicamentos manteve-se estável entre 19,5% e 21% da despesa total em saúde desde 2010, o que traduz controlo orçamental e eficiência financeira. No entanto, o peso relativo dos medicamentos na despesa total caiu para 13,6%, sinal de que o crescimento global do sistema foi mais rápido do que o investimento terapêutico. Sobre este aspeto, a OF sublinha a importância da implementação do reforço do uso de genéricos e biossimilares e uma gestão integrada do medicamento baseada em valor.

O relatório RADIS não contempla dados sobre o número de farmacêuticos a nível nacional a rede farmacêutica nacional, que constitui um dos eixos mais relevantes da prestação de cuidados de proximidade. Esta dimensão num relatório desta natureza representa é importante para a leitura holística do sistema de saúde, uma vez que Portugal dispõe de 2 921 farmácias comunitárias e 191 postos farmacêuticos móveis, com mais de 11 000 farmacêuticos em exercício, com cerca de 3,9 profissionais por farmácia, assegurando uma cobertura territorial de excelência.

O relatório sublinha a urgência de reforçar a prevenção e a literacia em saúde, num país envelhecido e com uma carga crescente de doença crónica. Também aqui, a OF defende uma maior participação dos farmacêuticos em programas de rastreio populacional, vacinação e gestão de situações clínicas ligeiras.

Os farmacêuticos têm proximidade e confiança pública, podendo desempenhar um papel ainda mais ativo na deteção precoce e acompanhamento de doentes, alinhando a política pública com a realidade da acessibilidade.

 
 
Helder Mota Filipe a discursar no evento RADIS 2025.
Fonte: Fotografias: Convenção Nacional de Saúde